E se eu partisse de mim?
E se um dia eu recolhesse os versos,
guardando cada palavra no fundo do silêncio,
como quem abandona um jardim
E se eu recusasse a voz da madrugada,
deixando o coração sem resposta,
como alguém que aprende
a não tocar feridas antigas?
Talvez eu apagasse teus rastros
das paredes da memória,
e o som da tua presença
virasse apenas vento distante.
Quem sabe eu cansasse de sentir —
não por esquecimento,
mas pelo peso acumulado
das esperas intermináveis.
Se a saudade deixasse de florescer
e se tornasse apenas um quarto vazio,
sem música,
sem perfume,
sem esperança pousada na janela.
E se eu dissesse basta,
fechando as portas ao que restou de nós?
Sem desejar teus retornos,
sem alimentar promessas incompletas,
sem recolher os pedaços
do amor que nunca chegou inteiro.
Talvez então eu descobrisse
uma estranha serenidade:
ver-te perdido no mesmo frio
que um dia deixaste em mim.
Porque existem dores
que não queimam —
apenas permanecem.
E há almas que continuam esperando,
não por amor,
mas pela impossível resposta
de quem jamais aprendeu
a permanecer.


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