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quinta-feira, 2 de abril de 2020

TEU CORPO — UM MAPA SECRETO




Teus ombros, montanhas onde a minha sede se perdia,
vales profundos onde a minha alma se desfazia em pó,
e eu, peregrino errante,
encontrava em cada curva, em cada recôndito,
a promessa de um dilúvio,
a vertigem de um despenhadeiro de prazer.

Os nossos corpos, rios que se fundiram,
embora cada gota guardasse a sua própria corrente,
um encontro de águas impetuosas,
uma sedução ancestral que ecoava nas rochas,
no sussurro do vento que nos trazia notícias de nós mesmos.

Não sei se o verbo nasceu em mim, ou no teu suspiro,
mas as nossas línguas, ah, elas se encontraram,
uma dança de salamandras na noite,
um murmúrio de areia aquecida pelo sol do desejo.

Eu te disse, com a voz embargada 
de um oceano recém-descoberto,
"Este é o nosso território,
este corpo que respira ao meu lado."
E tu, com a verdade crua dos elementos,
respondeste com um gesto,
uma entrega que desarmava as minhas certezas.

Perdia-me, sim, dias e dias,
não em labirintos, mas em paisagens familiares,
o relevo da tua pele, a fragrância que emana,
cada poro uma constelação a ser explorada,
cada curva um convite para um mergulho sem fim.

Era um saber ancestral,
um código gravado em cada toque,
um idioma sem palavras,
onde os corações falavam em pulsos,
e os corpos, em uma linguagem mais pura,
contavam histórias de encontros predestinados.

Não importava a origem do som,
o dialeto do toque,
pois a melodia era única,
uma sinfonia desabrochando no crepúsculo,
um despertar de sentidos adormecidos,
uma revolução silenciosa no leito do tempo.

Teu corpo, um poema vivo,
escrito em linhas de fogo,
em dobras que me convidavam a desbravar,
a desvendar segredos que guardavam a própria essência do ser,
e eu, um escravo voluntário da tua geografia,
vivia ali, sem tempo, sem distância,
apenas a eternidade do instante.

Cada toque era uma palavra nova,
um verso que se desdobrava em sensações,
o sussurro da tua respiração, a melodia do meu êxtase,
e eu, um aprendiz dedicado,
decifrava a tua beleza com a avidez de quem encontra o ouro,
o tesouro que sempre esteve ali, esperando a minha chegada.




Cléia Fialho

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