se a minha voz desaguou na tua, ou vice-versa,
mas as nossas línguas se falaram num silêncio
cheio de sussurros que só os corpos entendem.
E os corpos, ah, os corpos, mapas antigos,
revelaram segredos em cada curva, em cada linha,
uma geografia de prazer e descoberta,
onde me perdi sem medo de me encontrar.
Dias se foram, noites se desdobraram,
e eu, errante em teus vales, em tuas montanhas,
cada centímetro de tua pele, um novo continente,
explorado com a fome de quem bebe a própria vida.
A terra sob nossos pés se tornou um vulcão adormecido,
esperando o toque que faria a lava subir,
uma promessa de fogo que ardia nos olhos,
no pulsar acelerado, no ar que se tornava denso.
E eu sabia, te disse, com a certeza crua
de quem reconhece o trovão antes da tempestade,
que ali, em teu abraço, em teu beijo,
o mundo se desfazia e renascia a cada instante.
Perder-me foi o ganho, a entrega total,
navegar em tuas marés, em tua força bruta,
um naufrágio doce, um mergulho sem fundo,
onde cada respiração era um eterno voltar a ti.
Teu corpo, um livro aberto em páginas ardentes,
onde li versos que a alma guardará para sempre,
uma erupção de sentidos, um grito silenciado,
que ecoa em mim, em um tremor contínuo.
❦
Cléia Fialho

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