A Geometria do Nosso Refúgio
O mundo lá fora havia se reduzido a nada.
Do outro lado da janela fechada, a noite soprava uma brisa fria e silenciosa, mas aqui, no centro do nosso universo particular, a atmosfera era feita exclusivamente de calor, linho amarrotado e respirações entrecortadas.
A cama era nosso território sagrado.
Um colchão largo, coberto por lençóis de algodão macio que já guardavam o perfume misturado das nossas peles.
A iluminação vinha apenas da réstia de luz que vazava da fresta da porta do banheiro, desenhando contornos dourados e sombras suaves sobre as curvas do corpo dele e a curvatura do meu quadril.
Ele sempre foi a minha calma e o meu incêndio.
Havia nele uma força contida, um olhar denso de quem lê meus pensamentos antes mesmo de eu formular qualquer palavra.
E eu, por outro lado, sempre fui a tempestade que o desarmava, a entrega sem reservas.
Tínhamos aquela intimidade rara em que o silêncio nunca era incômodo, mas sim um preâmbulo.
Naquela noite, porém, não era o silêncio habitual que preenchia o quarto; era uma tensão palpável, elétrica, um magnetismo inevitável que nos puxava um para o outro com a força de uma maré.
Ele estava deitado ao meu lado, apoiado em um dos cotovelos, com os olhos escuros fixos nos meus.
Uma das suas mãos repousava na minha cintura, os dedos longos se cravando suavemente na minha pele quente, como se quisesse ter certeza de que eu era real.