TOCA DA LEOA

Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia




quinta-feira, 21 de março de 2019

UM INSTANTE



Partilha de segredos
Dois mundos, enredos
Um instante, duas vidas.

Pele que se desenrola como rio quente,  
Dedos traçando mapas de desejo escondido.  
Sussurros no escuro, bocas famintas,  
Corpos que se entrelaçam, sem pressa ou fim.  

Segredos vertidos em gotas de suor,  
Olhares que devoram, almas nuas.  
Um pulsar ritmado, eco de eternidade,  
Onde o eu se dissolve no teu abraço voraz.




  Cléia Fialho

quarta-feira, 20 de março de 2019

terça-feira, 19 de março de 2019

VULCÃO NA MINHA BOCA



Teu beijo não é doce -
é sal e brasa e terra molhada
é o gosto de quem sabe
que minha boca é o começo do mundo

Prazer que não quer mais e mais:
quer tudo, quer o fundo
quer a língua que desce
onde a boca não alcança

Me agita como o vento
antes da tempestade
me excita como o relâmpago
que não pede permissão para rasgar o céu

Perco a respiração
não por falta de ar -
por excesso de ti
porque teu hálito ocupa meus pulmões
e teu gosto é mais oxigênio que o ar

Quero que esse doce prazer não tenha fim
mas não é doce -
é amargo como a madrugada
quando teu beijo se torna lembrança
e eu ainda mastigo teu nome

Quero um beijo com ardor -
mas ardor não basta
quero que tua boca queime
até minha pele lembrar
o que é ser descoberta por dentro

Quero beijo com emoção -
não essa emoção mansa
mas a que treme nas coxas
a que molha o silêncio
enquanto tua língua desenha
mapas que só teu dente conhece

Quero um beijo de fazer amor
como só você sabe -
não com jeito especial
mas com a fome de quem
não come há dias
e encontra minha boca aberta
como única refeição

Seu beijo gostoso de homem fogoso
mas não é gosto - é fome
não é fogo - é incêndio
que começa onde meus lábios se abrem
e termina onde minhas pernas se fecham
em volta de ti

Queima por dentro
mas queima por fora também
queima onde teus dedos seguram meu queixo
queima onde tua barba arranha
queima onde tua respiração
é o único vento que conheço

Quero um beijo que me faça explodir
não como vulcão - pior:
como terra que espera a lava
como fruta que espera o dente
como mulher que espera
ser comida inteira

Em erupção não é só minha boca
é cada poro, cada pelo
cada curva que teu beijo ignora
e que depois encontra
quando tua língua desce
e tua boca se torna
a maior de todas as bocas

O sabor do teu beijo não tem comparação -
porque não é sabor:
é memória que arde
é futuro que já aconteceu
é o instante em que tua boca
encontrou a minha
e as duas esqueceram
que existem outras bocas
no mundo

Me deixa trêmula
não de pura emoção -
de puro medo
que esse beijo acabe
e eu volte a ser
a mulher que não sabia
que um beijo pode ser
maior que a boca
mais fundo que a garganta
mais eterno que o amor.




  Cléia Fialho

domingo, 17 de março de 2019

TEU CORPO NA MINHA MADRUGADA



Doce amado, não apenas penso:
te chamo em cada veia aberta
te invento em cada sombra que se move
na cama que ainda guarda teu vazio.

Povoas não só sonhos -
invades o suor dos meus lençóis
tua boca desce por minha espinha
como um rio que não pede licença.

A noite não traz teu rosto:
traz tuas mãos onde não estão
traz teu peito colado às minhas costas
traz o peso que me falta quando acordo.

Deito-me e és tu quem me deita
teu corpo sobre o meu - não lembras?
pesado, quente, dono de cada curva
teu beijo não é lembrança: é ferida.

Molhado e quente como a língua
que desenhou meus ossos
enlouqueço quando fecho os olhos
e ainda sinto teu gosto na minha nuca.

O fogo não arde por dentro
arde onde me tocaste
arde onde ainda não tocas
devora não a alma - devora o instante
em que fui tua e tu foste minha.

Adormeço enroscada em ti
mesmo que sejas apenas
o eco do teu cheiro no travesseiro
o ritmo não é do coração -
é o que resta do teu quadril contra o meu.

Dorme comigo!
Não como promessa - como ordem
que tua mão encontre meu sexo no escuro
que tua boca saiba onde me doeu
quando te foste e eu fiquei.

A noite é o repicar dos amantes
mas eu sou o sino que ainda vibra
o som que te chama pelo nome
enquanto me toco pensando
que és tu quem me toca.

Sabes que mesmo ausente
és mais presente que meu próprio corpo
quando arqueio e chamo
e tu respondes de dentro de mim.

Eu te amarei não amanhã
mas agora - nesta hora em que a cama
é o único altar onde te sacrifico
onde te crucifico em cada gemido.

Te levarei às estrelas
não nos sonhos - nas coxas abertas
no céu que se forma entre meus dedos
e tuas mãos invisíveis guiando.

Roubaremos as cores da manhã
mas primeiro roubaremos a noite
o escuro onde teus olhos me vigiam
onde tua boca me come sem pressa.

Pintaremos nossas vidas
com o leite e o mel dos nossos corpos
com o sal que escorre das minhas costas
e o doce amargo do teu desejo.

A noite me traz teu rosto
mas não apenas rosto:
traz o que tu nunca me deste
e eu nunca pedi -
o silêncio onde teu nome
é a única palavra que sei gritar.

Mais que nunca...
não me fizeste falta
quando tinhas corpo
agora que és fantasma
és mais carne que a carne.

Dorme comigo!
Não no sonho - no meu corpo
que ainda se abre como noite
para que entres
e nunca mais saias.




  Cléia Fialho

sábado, 16 de março de 2019

CHAMA SELVAGEM



Teu olhar encontrou meu corpo
não como está - mas como arde
fera que rói as próprias grades
unhas cravadas no metal frio.

Carente de tuas mãos na nuca
Desejosa de teu hálito quente
prisioneira do próprio desejo
que lateja como carne viva.

Romper a gaiola que inventaram
para meu cio domesticado
respirar o ar dos teus dedos
descendo pela espinha em fogo.

Correr teus riscos naturais
teu peito como chão selvagem
teu sexo como mata virgem
onde minha boca é exploradora.

Ser livre para te morder
para rasgar tua camisa com os dentes
para montar teu corpo como besta
que esqueceu o nome da jaula.

Ardem meus seios quando te encosto
forte é o cheiro do teu suor
selvagem é o som que escapa
quando me tomas por inteira.

Sufoca a fera que aprendi a ser
enlouquece o instinto contido
quando tua língua encontra
o centro molhado da minha floresta.

Brado por ti - não por liberdade abstrata
mas pela liberdade de ser tua presa
teu risco, teu caminho descoberto
teu instinto satisfeito em carne viva.

Ah! teus riscos são meus gozos
porque me privas de tudo
para me dares mais
na ponta dos teus dedos
no fundo da tua boca
na curva do teu quadril
onde minha fera finalmente
se reconhece selvagem.




  Cléia Fialho

sexta-feira, 15 de março de 2019

SÓLIDA TENTAÇÃO



Quero ser sua cruel resignação
 ser o seu pior pesadelo
 a sua mais sólida tentação
 que não ofereçe resistência
 e nem admite abdicação...

 Quero estar em seu pensamento
 em cada sonho que você tiver
 serei seu lascivo tormento
 o doido fetiche que quiser...

 E para onde você for
 ali eu vou sempre estar
 serei seu prazer flagelador
 a sua demência de amar...




  Cléia Fialho