TOCA DA LEOA

Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia




quarta-feira, 27 de abril de 2016

A TERRA CHEIRA A MATE QUENTE



Nos campos do Sul,
o horizonte não tem fim.
A terra cheira mate quente.
O vento corre solto.
Pampa aberto, alma leve.

As moças caminham serenas.

Passos firmes, chão antigo.
Olhar calmo, fundo, silencioso.
Como água escondida no cerro.

Vestem cores que dançam ao sol.

Flores presas no tecido leve.
O tempo ali anda devagar.
E a natureza dita o ritmo.

Fumaça sobe do galpão distante.

Cheiro de lenha no ar.
Elas passam.
E o campo muda de humor.

Não há pressa nos gestos.

Só presença.
São terra, vento e raiz.
São liberdade sem explicação.

Entre bois e quero-quero,
seguem inteiras.
Gaúchas do pampa.
Paisagem que respira.




  Cléia Fialho

terça-feira, 26 de abril de 2016

SINTO O PULSO DO TEU CIO



Desejo em tua morada,
quente boca, madrugada,
me penetra com fervor
como um hino feito em flor.
Sinto o pulso do teu cio,
num delírio, num arrepio.
Entre o sacro e o profano,
sou prazer, corpo e humano.

Nessa chama que me acende,
teu mistério me surpreende.
Fecho os olhos, sou oferenda,
nua prece que se estenda.
Sussurrando em doce alarde,
teu amor em mim se arde.
Sou pecado e devoção,
sou tua em consumação.




  Cléia Fialho

segunda-feira, 25 de abril de 2016

AS MOÇAS DO PAMPA



Nos campos abertos do Sul,
o vento corre pelas coxilhas.
É um sopro antigo.
Toca a pele.
Toca a memória.

As moças do pampa caminham calmas.

Mas há dança em cada passo.
O olhar delas guarda fogo.
Um brilho que quebra o silêncio.

Entre o mate e o laço na cintura,

a vida segue firme.
O corpo acompanha o sol.
E o tempo vai devagar.

Os vestidos se movem com a brisa.

Como se conversassem com o vento.
Na sombra das figueiras,
sorrisos nascem sem aviso.

Cabelos soltos.

Como potros livres.
O ar traz cheiro de terra molhada.
E perfume de pele viva.

A tarde desenha silhuetas na luz.

Tudo parece mais intenso.
São filhas do campo.
Mas também são mistério.

Há paixão tranquila em seus gestos.

Uma beleza que não corre.
E quando dançam,
o chão muda de ritmo.
O vanerão vira encanto.
E o mundo apenas observa.





  Cléia Fialho

domingo, 24 de abril de 2016

TEU NOME SOPRA NO VENTO



Num caminho tão sereno
vai meu verso a caminhar,
ouve o chão e o céu pequeno,
vem nos olhos se deitar.

A paixão que se derrama
feito orvalho na manhã,
vem na pele acende a chama,
feito sol sobre a maçã.

A noite vem, mansa e lenta,
cobrindo o campo de véu,
e a saudade se apresenta
feito estrela no céu.

Teu nome sopra no vento,
me procura sem ter fim,
vira doce sentimento
que se aninha dentro em mim.

E o destino, em leve dança,
vai traçando o nosso ser,
entre a dor e a esperança
de um amor a florescer.





  Cléia Fialho

quinta-feira, 21 de abril de 2016

A NOITE GEME EM TEU CIO



Lábios em brasa,
a noite geme em teu cio —
gozo se eleva.

O amor no campo se espraia,
feito flor que quer crescer,
beijo brando, doce saia,
vento a vida a envolver.

Brisa leve em tua trilha,
pele é mapa a seduzir,
e a paixão em forma de ilha
vem no toque a conduzir.

O silêncio se inclina,
como quem sabe escutar,
e a vontade cristalina
se deita no teu olhar.

Entre o sonho e a alvorada,
há um suspiro a pulsar,
uma chama delicada
que insiste em nos chamar.

E o tempo, lento e profundo,
se desfaz sem perceber,
quando dois se fazem mundo
no desejo de se ter.





  Cléia Fialho

quarta-feira, 20 de abril de 2016

RITO DE GOZO



Sinto teus lábios como brasa viva,
me penetram sem pressa, em devoção.
A volúpia, febril, me torna cativa,
sou templo onde pulsa a tentação.

A cada gesto, um rito se inicia,
numa dança de lume e prazer.
Teu toque é salmo em melodia fria,
me conduz ao limiar do renascer.

Latejas em mim, chama sagrada,
mistura de desejo e oração.
Teu gozo se espalha na alvorada,
como hóstia de luz na imersão.

Sacro e profano em mim se entrelaçam —
somos pecado que os deuses abraçam.




  Cléia Fialho