TOCA DA LEOA

Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia





domingo, 20 de setembro de 2015

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

CHEIRO DE FLORES ESQUECIDAS



A lua desenha sombras longas no corredor 
Onde o tempo esqueceu de seguir seu curso 
Tudo é silêncio e poeira guardada.

O veludo negro das cortinas cobre o rosto 
Do retrato que ainda respira na parede 
Pois a vida deixou uma marca na moldura. 

Ouço o bater de um relógio parado 
Como se o peito da casa ainda sentisse 
O frio que sobe pelas frestas do assoalho.

A névoa entra pela janela aberta 
Trazendo o cheiro de flores esquecidas 
Neste jardim onde ninguém mais caminha.

Fecho os olhos e sinto o peso da noite 
Onde o sonho se confunde com o destino 
E o mundo lá fora parece uma memória distante.




  Cléia Fialho

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

TECENDO O SILÊNCIO EM LUZ



No silêncio da noite, dançam os astros,  
pingos de luz num manto negro profundo,  
cada estrela, um sussurro de histórias,  
ecos de sonhos que vagam no tempo.  

Planetas giram em sua dança eterna,  
místicos viajantes de um universo,  
cujas órbitas recortam a paz  
da imensidão que abriga nosso ser.  

E no calor da lua, refletimos,  
nossas esperanças nascendo nas sombras;  
um chamado aos corações pulsantes,  
um mapa para as almas errantes.  

Cosmos, vasto lar de mistérios,  
teu abraço é o lar da fragilidade,  
onde o infinito se faz acessível,  
e nossa insignificância ganha forma.  

Que ao olhar para cima, encontremos  
a poesia que brilha em cada estrela,  
um laço entre o céu e o nosso ser,  
tecendo o silêncio em luz  presente.




  Cléia Fialho

terça-feira, 15 de setembro de 2015

O QUE PENSO DE TI QUANDO NINGUÉM VÊ



Vou dizer-te uma coisa que nunca te disse.

Nas reuniões, quando estás sentado do outro lado da mesa a falar de números e prazos, eu não te ouço. Não uma palavra. Estou a olhar para as tuas mãos — para aqueles dedos longos que sabem exactamente onde tocar-me — e a lembrar-me do que fizeste com eles na noite anterior. 

E depois olho para a tua boca a mexer-se, e lembro-me de onde essa boca esteve, e tenho de cruzar as pernas por baixo da mesa porque o meu corpo trai-me.

Uma vez — não sabes disto — vim na cadeira, sem me tocar, só de te ouvir falar. Foi na reunião de terça-feira. Estavas a explicar não sei o quê, e a tua voz baixou um bocadinho — aquele tom que usas comigo quando estamos os dois nus — e o meu corpo respondeu como se me tivesses chamado. Fingi que estava a tomar notas. Estava a tremer.

Quando sais da sala, os outros perguntam-me se estou bem. Eu sorrio. Digo que sim. Mas por baixo do vestido, eu sou uma coisa molhada e desesperada que só quer que tu voltes, me empurres para dentro de uma sala qualquer, me feches contra a parede e me faças esquecer o meu próprio nome.

Confesso mais...

Quando tomo banho, penso em ti. Sempre. Deixo a água escorrer por sítios onde a tua boca já esteve e finjo que és tu. Ponho a mão onde tu pões a tua e chamo-te baixinho no vapor. 
Já vim três vezes assim, sozinha, só a pensar em ti — e depois saio do chuveiro envergonhada como se me tivesses apanhado.

Guardo uma das tuas t-shirts no fundo da gaveta. Aquela que ficou aqui há duas semanas. Não a lavei. Cheira a ti, e nas noites em que não vens, é ela que uso — vestida sem nada por baixo — e enterro o rosto na gola e finjo que és tu a abraçar-me por trás. 
Às vezes durmo com ela. 
Às vezes faço mais do que dormir.

Tenho pensamentos contigo que uma mulher decente não devia ter. Coisas que nunca ousei dizer em voz alta. Penso na tua mão a apertar-me o pescoço com gentileza enquanto me entras — sem magoar, só o suficiente para eu saber que sou tua. 

Penso em ficar de joelhos à tua frente na tua cozinha enquanto tu tentas continuar a preparar o jantar como se não fosse nada. Penso em ser tua contra o vidro embaciado de uma janela num sítio onde nos possam ver. Penso em pedires-me coisas que uma outra mulher recusaria — e em eu dizer que sim, dizer sim ao teu ouvido com a voz mais mansa do mundo.

Já espiei o teu telemóvel. Não por ciúme. Por fome. Queria ver o que dizes de mim quando não estou — se falas de mim aos teus amigos, se contas o que fazes comigo, se guardas fotos. Não encontrei nada. 
E fiquei quase desiliuda — porque uma parte de mim queria descobrir-te obsceno também, queria saber que também pensas em mim nas reuniões, que também vens no chuveiro a pensar em mim, que também guardas peças minhas em gavetas.

Tenho uma fotografia tua no telemóvel — daquela vez em que adormeceste na minha cama, de barriga para baixo, com o lençol a cobrir-te só até à cintura. Não sabes que a tirei. E olho para ela mais vezes do que devia. Nos elevadores. Nos táxis. 
Sob a mesa numa reunião em que estejas a três cadeiras de mim.

E se um dia leres isto, meu amor — não te espantes.
Não fujas.
Vem cá.

Vem provar cada uma destas confissões, uma por uma, sem pressa. Vem descobrir todas as mulheres que eu sou quando penso em ti — a decente e a outra, a que te olha nos olhos no jantar e a que te olha nos olhos quando me tens de joelhos.

Sou as duas.
E as duas são tuas.
Sempre foram.




  Cléia Fialho

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O QUE SINTO NO MOMENTO EM QUE SOU TUA



Sou tua neste instante.

Deitada debaixo de ti, com o teu peso a esmagar-me deliciosamente contra o colchão, com as tuas mãos a prenderem-me os pulsos sobre a cabeça — sou tua de uma forma que nenhuma palavra decente consegue descrever.

O lençol está por baixo de nós, mas nós estamos noutro sítio. Estamos naquele lugar onde o tempo se torna elástico, onde os minutos incham como bolhas e rebentam devagar, onde nada mais existe excepto a tua respiração no meu pescoço e o meu coração a bater tão forte que tu deves senti-lo contra o teu peito.

Abre-me. Sabes que já estou aberta.

Estou aberta desde que entraste pela porta com aquele olhar que me dispensa palavras. Estou aberta desde que me arrancaste o vestido pelos ombros sem paciência para fechos. Estou aberta desde que a tua boca desceu-me pelo pescoço, pela clavícula, pelo vale entre os meus seios, ensinando-me outra vez o mapa que já sabia de cor.

Entra devagar, como sabes que gosto. Deixa-me sentir cada centímetro, deixa-me arquear as costas do colchão e gemer para dentro da tua boca aberta sobre a minha. Depois vai fundo. Vai onde ninguém mais foi. Vai a esse sítio em mim que só tu conheces e que responde só a ti — esse sítio secreto que reservei para ti antes ainda de te ter conhecido.

Sou boca — aberta a chamar-te. Sou ancas — a subir para te encontrar a meio caminho. Sou coxas — apertadas à volta da tua cintura como se tivessem medo que fugisses. Sou dedos afundados no teu cabelo, unhas cravadas nos teus ombros, suor a misturar-se com o teu suor até já não haver forma de distinguir.

Chama-me tua.
Chama-me alto.
Chama-me à frente.

Diz-me obscenidades ao ouvido enquanto te mexes dentro de mim. Diz-me como estou molhada, como estou apertada, como és tu que me pões assim. Diz-me que sou tua puta e tua rainha, tua santa e tua pecadora, tua mulher e tua desconhecida — todas ao mesmo tempo. Diz-mo. Sei que sou. Sou tudo o que quiseres que eu seja, contigo, agora, aqui.

Marca-me. Morde-me o pescoço, deixa-me a marca dos teus dentes onde toda a gente possa ver amanhã, para que eu passe o dia inteiro na rua a lembrar-me de agora, a apertar as coxas debaixo da secretária, a corar quando alguém me pergunta se estou bem.

Segura-me o pescoço com essa tua mão grande — com a gentileza de sempre, com a firmeza que me faz gemer. Sabes que gosto. Sabes que é aí que eu me perco. Sabes que é aí que deixo de ser eu e passo a ser só tua.

Cavalga-me se me quiseres em cima. Vira-me se me quiseres de bruços. Levanta-me se me quiseres contra a parede. Fá-lo. Faz de mim o que quiseres.

Estou entregue.
Estou entregue como nunca me entreguei a ninguém.
Nem a mim mesma.

Sente-me a apertar-me à tua volta... A tremer por dentro. Sente-me a vir sob ti — a chorar de gozo, a chamar-te, a esquecer o meu próprio nome — e depois vem tu, vem em mim, vem fundo, vem tudo. Deixa em mim uma parte tua para eu levar comigo pelo dia fora.

Que o meu corpo guarde o teu por dentro até amanhã.

Que a minha pele fique com o teu cheiro por baixo do perfume. Que a minha boca fique com o teu gosto por baixo do café. Que o meu ventre fique com o eco da tua fome mesmo depois de eu me lavar.

Sou tua 
— no sentido mais obsceno
— mais bonito
— mais definitivo dessa palavra.

Sou tua na mesa do jantar quando conversamos sobre coisas banais... no elevador cheio quando finjo não te olhar... Em cada instante em que respiro.

E se me tiveres de novo daqui a uma hora, serei outra vez.
E daqui a uma hora depois dessa. 
E amanhã. 
E depois de amanhã.
Sou tua.
Sempre.



  Cléia Fialho

quarta-feira, 9 de setembro de 2015