TOCA DA LEOA
Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia




quinta-feira, 31 de julho de 2014

EU, ELE E OS OUTROS DOIS



O sexo entre nós tem seguido um padrão ultimamente. Um ritual que já conhecemos de cor, como uma dança ensaiada que nunca perde a graça, mesmo quando os passos são sempre os mesmos.

Começa sempre com um "não" dito baixinho, quase por educação. Depois vem o abraço que aperta mais do que devia. Um beijo perdido aqui, outro ali, mais um "não" que já não engana ninguém, outro abraço mais forte... e quando percebemos, já estamos mergulhados um no outro, esquecidos do mundo, com uma única missão: matar aquela saudade que aperta o peito e faz doer.

Não há novidade nisso. É sempre assim, e continua sendo bom. Talvez até bom demais.

Mas tem algo diferente agora. Uma camada nova, uma textura que antes não existia.

Há mágoa, sim. Isso não mudou. O amor... bem, o amor foi embora faz tempo, deixando apenas um eco vago, uma lembrança do que já fomos. Mas a paixão ainda está ali, teimosa, resistindo. E a tesão... ah, a tesão é a única coisa que nunca abandonou este quarto.

Apenas um detalhe mudou. Um pequeno pormenor. Quase invisível.

Depois que tudo acabou, quando os corpos finalmente se separaram e a respiração voltou ao normal, ele me olhou com um jeito diferente. Seus olhos tinham uma perguntas que a boca demorou a formular.

— Hoje senti algo estranho — disse, a voz ainda um pouco rouca. — Não estávamos sozinhos na sua cama.

Eu sorri. Não um sorriso feliz, mas aquele sorriso de quem sabe de um segredo há muito tempo.

— Pois não, meu bem — respondi, passando os dedos pelo peito dele. — Há muito tempo que sinto que somos três na cama. Há muito tempo que temos uma presença invisível entre nós, uma sombra que se deita ao nosso lado.

Ele franziu a testa, confuso.

— Mas esta noite... esta noite eram quatro.

O silêncio caiu pesado entre nós. Eu podia ver os pensamentos girarem na cabeça dele, tentando entender. A verdade é que a cama sempre foi pequena demais para tanta gente. Primeiro foi apenas nós dois. Depois veio o fantasma do que já fomos, aquela versão nossa que ainda se amava de verdade. Depois veio o desejo desesperado de voltar atrás no tempo. E agora...

Agora havia um quarto elemento.

— Quem são os outros? — ele perguntou, a voz quase um sussurro.

Olhei para o teto, pensando em como explicar.

— Tem você, claro. Tem o homem que você era quando me amava de verdade. Tem o homem que você é agora, que sente tesão mas não sente amor. E tem... bem, tem a mulher que eu estou tentando ser.

Ele não entendeu. Talvez nunca entenda.

Mas eu sei. Sei que cada vez que nos deitamos juntos, somos uma plateia de fantasmas se observando. O passado, o presente, o desejo, a mágoa, tudo misturado naquele lençol suado.

E esta noite, pela primeira vez, senti que o quarto convidado era mais forte que todos nós. Mais presente. Mais real.

— Ela estava aqui — continuei, a voz baixa como se estivesse contando um segredo sagrado. — Foi ela quem guiou minhas mãos, quem sussurrou no meu ouvido, quem fez cada movimento ser mais intenso.

— Ela? — ele repetiu, sem entender.

— A mulher que você quer que eu seja. A que você deseja, mas que nunca chega a encontrar. A que caberia perfeitamente no espaço vazio que você deixou no seu coração.

Ele ficou em silêncio. O quarto escuro nos engolia. Lá fora, a noite seguia seu curso, indiferente às nossas confissões.

Pensei em tudo o que não foi dito. Em como o amor pode se transformar em algo que a gente não reconhece. Em como duas pessoas podem estar tão perto e tão longe ao mesmo tempo.

— Nós nos tornamos uma multidão — falei por fim. — Cada um de nós carrega tantas versões de si mesmo que já não cabe numa cama de casal.

Ele me puxou para perto. Não era um gesto de amor, mas de consolo. Ou talvez de medo. De sentir que estava perdendo não só a mim, mas a todos os eus que ele conheceu.

O tempo passou. O relógio na parede marcava horas que eu não queria ver. O sol começava a clarear a janela, e as sombras da noite se dissipavam.

— E amanhã? — ele perguntou. — Quantos vamos ser amanhã?

Não respondi. Porque a verdade era que eu também não sabia. Talvez mais. Talvez menos. Talvez apenas um de nós, finalmente decidido a partir.

Mas naquela noite, enquanto o sono nos vencia, eu sabia que a cama estava cheia. Cheia de memórias, de desejos não realizados, de pessoas que fomos e pessoas que poderíamos ter sido.

Quatro corpos num espaço feito para dois.

Quatro almas num amor que já não cabe em lugar nenhum.

E no meio de tudo isso, eu ainda sentia aquela pontada no peito. Não era amor. Não era mágoa. Era apenas a certeza de que, quando a noite terminasse, restariam as cinzas de tudo o que construímos.

Mas enquanto a noite durasse, estaríamos ali, eu, ele, e os outros dois. A plateia invisível. O quarteto impossível. O segredo que a cama guardava entre seus lençóis amassados.

— Vamos dormir — disse, finalmente.

Ele anuiu. E enquanto fechava os olhos, eu podia jurar que via as sombras se movendo ao redor da cama. Elas nos observavam, nos julgavam, nos desejavam.

Éramos quatro. E nenhum de nós sabia como voltar a ser um.



  Cléia Fialho

segunda-feira, 28 de julho de 2014

EXTREMAMENTE BOM!



A manhã começou diferente. Uma mensagem rápida, um tom de voz cansado ao telefone, e eu soube que ele não estava bem. Uma constipação, talvez. Ou algo parecido. Não pensei duas vezes.

Peguei a bolsa, a chave do carro, e fui.

Quando cheguei, encontrei-o deitado na cama, coberto até o queixo, o rosto marcado pelo cansaço e um leve rubor de febre nos olhos. Parecia frágil, quase vulnerável. Algo naquele homem doente despertou em mim um instinto que eu mesma não esperava.

Deitei-me ao seu lado. Não com segundas intenções. Apenas para aquecer, para oferecer colo, para espantar aquela gripe com carinho. Meus braços envolveram seu corpo, minhas mãos percorreram suas costas com gestos suaves. Beijinhos aqui e ali, na testa, nas bochechas, no ombro.

Apenas isso. Cuidado. Nada mais.

Mas ele começou a retribuir. Os beijos que me dava tinham outra temperatura. Outra textura. Outra intenção. Não eram beijos de quem está doente e quer descansar. Eram beijos de quem quer mais. Muito mais.

Nossas línguas se encontraram e foi como se um interruptor tivesse sido acionado. A febre dele se misturou com a minha. O desejo cresceu rápido, silencioso, devorador. Nós nos beijamos como se não houvesse amanhã, como se a doença fosse uma desculpa para nos entregarmos sem culpa.

Foi então que tive uma ideia.

Uma ideia que não costuma me visitar com frequência. Algo que eu nunca havia feito antes. Talvez tenha sido o ar de fragilidade dele, ou a maneira como seus olhos me pediam algo sem dizer uma palavra. Sei lá.

Levantei-me devagar. Afastei-me da cama com passos calculados, enquanto ele me observava, confuso, sentado na cama sem saber o que esperar. Coloquei-me aos pés da cama e o olhei nos olhos.

Ele não esperava o que veio a seguir.

Comecei a dançar.

Não uma dança qualquer. Uma dança lenta, deliberada, feita para ser vista. Feita para provocar. Feita para queimar.

A primeira peça de roupa caiu. Meus dedos percorreram minha própria pele, traçando caminhos imaginários, provocando arrepios onde eu mesma tocava. Eu lambi meus próprios dedos enquanto mantinha contato visual com ele, sentindo cada olhar fixo em mim. Outra peça foi embora. Depois mais uma. Meu corpo foi se revelando aos poucos, como se eu estivesse desembrulhando um presente que era ao mesmo tempo meu e dele.

Ele estava ofegante. Seus olhos brilhavam com um fogo que não era febre. Mas quando ele tentou se levantar para vir até mim, coloquei a mão no ar, impedindo.

— Não. Fica aí. Só olha.

Ele obedeceu. Claro que obedeceu.

Continuei a dança. Cada movimento era um convite. Cada gesto, uma promessa. Eu mesma me toquei sem pudor, deslizando as mãos por onde sabia que ele gostava, pela barriga, pelos seios, descendo lentamente até onde o desejo já era quase insuportável.

Então parei.

Coloquei uma perna sobre a cama, abrindo-me completamente para ele. Não havia pressa. Não havia vergonha. Apenas uma exposição total, sem véus, sem defesas. Minhas mãos continuavam o trabalho que eu mesma havia começado, e ele via tudo. Cada movimento. Cada reação. Cada gota de prazer que eu própria extraía de mim.

O ar no quarto ficou pesado. O som dos seus suspiros era a única música que precisávamos.

— Agora — sussurrei — eu vou montar você.

Não esperei resposta. Subi nele.

Sentei-me sobre seu corpo com a confiança de quem sabe exatamente o que quer. Encaixei-me nele e comecei a me mover. Não no ritmo dele. No meu. Devagar no começo, sentindo cada centímetro, cada pulsação. Depois mais rápido, mais selvagem, sem permissão nem aprovação.

Eu estava no controle. E era exatamente assim que eu queria.

Deitei-me para trás, apoiando as mãos nas coxas dele, arqueando o corpo para que ele pudesse ver tudo. Minha mão encontrou o caminho e eu comecei a tocar onde sabia que isso nos levaria mais longe. Ele gemia baixinho, palavras soltas, sem sentido. Seu corpo tremia sob o meu.

— Olha — eu disse, com a voz firme. — Olha o que você faz comigo.

Ele olhava. Não desviava os olhos.

Chegamos juntos. Ou quase. Foi uma sincronia perfeita, um clímax que nos pegou desprevenidos, que nos arrancou suspiros profundos, que nos deixou ofegantes e suados.

Quando tudo acabou, ainda estávamos unidos. Seu rosto, antes marcado pela gripe, agora estava transformado. Cansado, mas feliz. Doente, mas pleno.

Eu deslizei para o lado e me aninhei nos braços dele. O suor ainda cobria nossos corpos. A respiração, aos poucos, voltava ao normal.

— Você ficou louca — ele murmurou, com um sorriso mole.

— Você gostou — respondi, sem dúvida.

Ele riu baixinho. Depois me puxou para mais perto.

A gripe ainda estava lá. A febre, também. Mas eu sabia que algo tinha mudado naquela noite. Não é todo dia que a gente se descobre de um jeito novo, que a gente se entrega e se domina ao mesmo tempo.

Naquele quarto escuro, naquela cama que já não era mais de doente, eu entendi que o desejo não pede licença. Não espera o momento certo. Não se importa se é dia ou noite, se está frio ou calor, se o corpo está saudável ou fragilizado.

O desejo só quer ser sentido.

E ali, naquele instante, ele foi sentido. Em todas as suas formas. Na dança. No olhar. No controle. Na entrega.

Duro! E muito duro... e extremamente bom!




  Cléia Fialho

sexta-feira, 25 de julho de 2014

O ATO NO ESCURO



Os dias se arrastam num ciclo vicioso de gritos e silêncios. Quando não estamos berrando um com o outro, simplesmente nos ignoramos. É exaustivo. É desgastante. Não é vida para ninguém.

Mas ontem...

Ontem foi diferente.

Também tivemos nossas discussões, nossas raivas, nossas explosões por motivos que já nem lembro. Palavras ditas em voz alta, acusações jogadas como pedras. O de sempre.

Depois disso, porém, veio um silêncio que nos engoliu inteiros.

Um silêncio denso, escuro, que nos envolveu como um véu e nos arrancou da realidade onde temos vivido. Naquela escuridão profunda, onde não conseguíamos ver nem os contornos dos nossos próprios corpos, onde o pensamento ecoava mais alto que qualquer palavra, ele me puxou para si.

Ou melhor, ele me abraçou.

Seus lábios encontraram os meus como se fosse a primeira vez — e não estou falando de romance, mas de estranhamento. O gosto era diferente. O toque era novo. Havia algo ali que não reconhecia.

Senti vergonha. Uma timidez que não esperava sentir. Retribuí o beijo sem entusiasmo, quase por obrigação, como quem cumpre um dever.

Fazia tanto tempo desde a última vez que estávamos assim que parecíamos dois desconhecidos. Dois estranhos aprendendo a linguagem do corpo um do outro. Toques que não nos pertenciam, beijos que não pareciam nossos.

No silêncio, só se ouvia a respiração. Baixa, hesitante, como se o ar tivesse medo de fazer barulho.

Eu sentia o desejo dele crescer — evidente, sem pudor. O meu, porém, não acompanhava. Fiquei ali, apenas recebendo. Deixando que me beijasse, que me tocasse, que explorasse meu corpo sem que eu realmente me entregasse.

Nenhum gemido escapou. Nenhum som. Apenas a respiração ofegante dele sobre mim, e a minha — levemente descontrolada, mas sem paixão.

Minha roupa foi removida. Minhas pernas se abriram. Ele se posicionou como quis, como precisava. Seus beijos desceram pelo meu corpo, sua língua percorreu cada centímetro da minha pele — mamilos, barriga, umbigo, até chegar à minha intimidade, molhada, sim, mas vazia de emoção.

Ele me lambeu inteira. Tocou-me onde sempre tocou. Mas eu estava ali apenas com o corpo, a mente em algum outro lugar.

Quando ele me penetrou — duro, vigoroso — minhas entranhas o receberam, mas não o abraçaram. Era uma recepção fria, mecânica, como quem cumpre uma função biológica.

O prazer chegou mesmo assim. O orgasmo veio, tomou conta de mim, fez meu corpo se contrair como sempre fazia. Eu sabia que estava molhada, sabia que meu corpo respondia, sabia que isso só aceleraria o momento dele.

Mas não houve um som. Nenhum gemido. Nenhuma palavra. Foi um orgasmo mudo, estranho, como eu nunca imaginei ser possível.

Quando as contrações diminuíram, ele se enterrou em mim com mais força, num vai e vem que já não pedia licença. E veio também.

Ficamos assim. Eu deitada, pernas abertas, ele sobre mim, o peso do seu corpo quente e suado. E o silêncio continuava. Aquele silêncio escuro que nos abafava, nos escondia, nos ensurdecida.

Não sei definir o que aconteceu.

Não foi amor. Isso eu sei. Não foi amor há muito tempo.

Mas também não foi apenas sexo. Houve algo ali no meio, uma coisa que não tem nome, um sentimento cinza que não cabe em categorias.

Talvez tenha sido só a satisfação de uma necessidade. Como matar a fome. Como beber água. Como qualquer outra função do corpo.

Não sei.

E o pior: ainda não decidi se gostei.




  Cléia Fialho

terça-feira, 22 de julho de 2014

A ÚLTIMA NOITE



Quem acompanha minha história já sabe: a relação com ele chegou ao fim faz tempo. Já não existe o que existia antes, já não somos o que fomos um dia. Mas uma coisa permanece — o sexo ainda é bom. Quando acontece, claro.

Na quinta-feira, ele apareceu por aqui depois da aula. Acho que os dois sentiam falta daquele contato, daqueles carinhos que só a gente sabe dar.

Já era tarde quando ele chegou. Eu costumo dormir cedo e acordo antes do sol nascer, então já estava na cama, quase pegando no sono.

Ele tirou a calça e se deitou ao meu lado. No começo, foram apenas braços envolvendo meu corpo, beijinhos leves, uma troca silenciosa de afeto. Quase me deixei levar pelo sono — aconchegada contra ele, sentindo sua respiração no meu cabelo, seus lábios roçando minha pele macia.

Os beijos começaram no rosto. Depois deslizaram para o pescoço, para os ombros, criando um rastro de arrepios por todo o meu corpo. Quando chegaram aos meus lábios, já havia língua. E quando encontraram meus seios, meus mamilos já estavam durinhos, respondendo ao desejo que crescia entre nós.

A roupa foi desaparecendo aos poucos, sem pressa, sem palavras. Nenhum de nós precisava dizer nada — o corpo já falava por si.

O que começou suave se transformou rapidamente. Os beijos leves deram lugar a algo mais intenso, mais urgente. Uma fome que pedia para ser saciada.

Ele se deitou de costas. Eu me posicionei sobre ele, guiando seu corpo até o meu. Sua ereção entrou em mim sem resistência — dura, quente, pronta. Nossos corpos se encaixaram como se tivessem sido feitos um para o outro.

Amo essa posição. Amo ter o controle, ditar o ritmo, decidir quando acelerar e quando desacelerar. É como conduzir uma orquestra onde o prazer é a única música.

Quando me endireitei, arqueando as costas, deixei espaço para suas mãos encontrarem o caminho até meu grelinho. Seus dedos conheciam cada reação do meu corpo, cada ponto que me fazia gemer mais alto. Ele me estimulava enquanto eu me movia sobre ele, num ritmo que combinávamos sem precisar combinar nada.

Segurei o máximo que pude. Cada movimento me levava mais perto do limite, cada toque me aproximava da explosão. Até que não houve mais como segurar.

— Vem comigo — pedi, a voz saindo num fôlego rouco.

E ele veio.

Chegamos juntos. Ao mesmo tempo. Nossos corpos se contraíram numa sincronia perfeita, como se o prazer fosse uma onda que nos atravessava simultaneamente.

Foi uma explosão. Um orgasmo que parecia iluminar o quarto escuro, uma comunhão de prazer tão intensa que me fez esquecer por um instante que aquilo era apenas sexo.

É assim com ele. Sempre foi. Uma conexão física que eu nunca encontrei em mais ninguém.

E talvez nunca encontre de novo.

Ontem, ele me disse. Não com palavras, mas com o silêncio que ficou depois. Com a forma como se vestiu sem me olhar. Com o beijo frio na testa antes de sair.

Aparentemente, foi o fim.

Aparentemente, aquela noite — a noite em que ainda conseguimos sentir prazer juntos — foi a última.

Fico aqui, deitada, sentindo o cheiro dele no travesseiro, o calor que ainda insiste em ficar na pele. E penso em como as coisas terminam, mesmo quando a gente não quer. Em como o corpo ainda deseja o que a alma já deixou ir.

Foram bons. Foram intensos. Foram únicos.

Agora, resta apenas a lembrança.

E os beijos.

Os beijos de prazer que um dia existiram — e que, apesar de tudo, ainda valeram a pena.




  Cléia Fialho

sábado, 19 de julho de 2014

A NOITE DOS PRAZERES INFINITOS



... de tudo o que sentimos, de tudo o que vivemos, de todas as vezes que nosso corpo se entregou ao outro naquela noite mágica.

O quarto era perfeito. A cama imensa, com lençóis claros e uma quantidade de almofadas que convidava ao descanso — ou a tudo menos isso. A janela aberta revelava um cenário de cartão-postal: o rio serpenteando sob a luz da lua, as luzes da cidade piscando como estrelas caídas, uma ponte iluminada que se estendia ao fundo, ligando duas margens como nós dois estávamos prestes a nos ligar.

Quando a porta se abriu, ele estava ali.

Magro como sempre, a barba por fazer dando-lhe um ar de quem acabou de acordar — ou de quem não dormiu pensando exatamente nesse momento. E nos olhos dele, uma fome que nenhuma palavra poderia descrever. O desejo transbordava por cada poro, cada linha do seu rosto, cada movimento dos seus dedos quando ele me puxou para si.

O abraço foi violento, mas não de força bruta. Foi violento de intensidade, de necessidade, de uma saudade que apertava os ossos. Nossos corpos se fundiram como se tentassem ocupar o mesmo espaço, como se houvesse uma urgência em se tornar um só que nenhuma distância poderia justificar.

As bocas se encontraram em seguida. Não houve beijo de boas-vindas, nem cumprimento educado. Foi um devorar mútuo, línguas que dançavam num ritmo frenético, respirações que se misturavam até não saber mais de quem era o ar que preenchia meus pulmões.

Não me lembro de como a roupa sumiu. Talvez tenha sido um truque da memória, uma licença poética que a vida nos concede nos momentos de êxtase. Num instante, estávamos vestidos, e no seguinte, completamente nus, entrelaçados naquela cama imensa, tão grudados que seria impossível dizer onde começava um e terminava o outro.

As mãos percorriam territórios conhecidos, mas com a ânsia de quem explora pela primeira vez. Cada toque era um reencontro, cada carícia uma confirmação de que a saudade era real, de que os dias distantes haviam deixado marcas que só poderiam ser curadas ali, naquela cama, naquela noite.

Eu queria sentir seu corpo dentro de mim. Queria aquele preenchimento que só ele sabia dar. Mas ele não permitiu — pelo menos, não ainda.

Com um gesto firme, deitou-me de barriga para cima e posicionou sua cabeça entre minhas pernas. Seus olhos encontraram os meus por um instante, e houve ali uma promessa silenciosa.

Sua boca começou seu trabalho. A língua explorava cada centímetro da minha intimidade como quem lê um livro sagrado, demorando-se em cada página, saboreando cada palavra. Entrava e saía, lambia e sugava, desvendava cada dobra, cada relevo do meu corpo com uma precisão que me tirava o fôlego.

— Vem-te — ele ordenou, a voz abafada contra minha pele. — Vem-te para mim.

E eu obedeci. Não houve resistência, não houve controle. O orgasmo tomou conta de mim como uma onda que não pede permissão para chegar, apenas chega e arrasta tudo.

Foi o primeiro.

Quando ele se deitou ao meu lado, ainda com o gosto de mim nos lábios, eu sabia que era minha vez de retribuir.

Sua ereção estava ali, pulsante, esperando. Levei-o à boca com a fome de quem esteve dias em jejum. Chupei, lambi, mordisquei com uma leveza que fazia o limite entre prazer e dor se confundir. Minha garganta acolhia cada centímetro, e eu ouvia sua respiração se alterar, seus gemidos escaparem entre dentes cerrados.

Cada vez que sentia que ele estava prestes a explodir, eu parava. Sopro suave, movimento lento, e recomeçava tudo de novo. Era uma tortura deliciosa, um jogo onde o prazer era a moeda e a paciência a regra.

Até que ele não aguentou mais. Sua voz surgiu rouca, implorando pelo fim daquela agonia gostosa — e eu cedi. Senti seu gosto se espalhar pela minha boca, quente e intenso, enquanto seu corpo se contraía todo.

Deitamos lado a lado, mãos dadas, olhos nos olhos. O silêncio era preenchido apenas por nossas respirações se acalmando, e a sensação de que tudo aquilo era um sonho do qual eu não queria acordar.

Mas as mãos dele continuavam ativas.

Deslizando pelo meu corpo, encontraram o caminho até meu ponto mais sensível. Seus dedos, que conheciam tão bem cada reação minha, começaram a estimular meu grelinho com uma precisão cirúrgica. Meu corpo respondeu antes mesmo que eu pudesse pensar, arqueando-se contra sua mão.

Dois dedos entraram em mim, encontrando aquele ponto interno que fazia meu cérebro se desligar. O orgasmo veio como um trovão — inesperado, avassalador, impossível de conter.

Poucas vezes senti algo tão intenso. O corpo parece se desprender da alma; não há controle, não há pensamento. Cada músculo, cada fibra, cada pedacinho de mim tremia numa sincronia perfeita de prazer absoluto.

E assim seguimos a noite.

Nossas mãos e bocas se alternavam num balé de prazer, sem pausas, sem descanso. Hora de frente, hora de costas, com ele dentro de mim fundo e forte, ou apenas parado, sentindo o calor do meu corpo apertá-lo. Cada posição era uma descoberta, cada movimento uma afirmação de que aquele momento era nosso.

Não sei quantas vezes cheguei ao ápice. Perdi a conta depois do décimo, depois do vigésimo. Para as mãos dele, para sua boca, para seu corpo dentro do meu — cada orgasmo era único, e eu me entregava a cada um como se fosse o primeiro.

Por fim, depois de me possuir por trás, com meu corpo arqueado como ele gosta, deitei-me de barriga para cima, pernas abertas, completamente entregue.

— Quero-te em mim — pedi, a voz quase um sussurro. — O mais possível.

Ele obedeceu. E seu corpo respondeu com um jato perfeito que se espalhou pelo meu peito, minha barriga, minha intimidade — uma marca quente e úmida de que aquela noite realmente aconteceu.

Foi uma noite digna dos filmes mais ousados. Da literatura mais explícita. Dos sonhos mais molhados.

Mas não era filme, nem livro, nem sonho.
Era real.
Era nosso.




  Cléia Fialho

quarta-feira, 16 de julho de 2014

ENTREGA TOTAL



O jantar estava quase pronto quando a campainha tocou. Não esperava visita naquela hora — muito menos ele. Ainda vestia a roupa do treino, suada e desalinhada, e nem tinha tomado banho, guardando esse momento para mais tarde, antes de dormir.

Quando abri a porta, ele estava lá, com aquele sorriso que sempre me desarma. Envolveu-me num abraço que apertou cada pedaço de mim, e eu senti o calor do seu corpo contra o meu, mesmo através dos tecidos. Riram-se os dois — ele da minha aparência desleixada, eu da surpresa de vê-lo ali.

O abraço demorou mais do que o normal. E quando ele se afastou, seus olhos já tinham mudado.

Os beijos começaram leves. Uma carícia rápida nas bochechas. Depois desceram para o pescoço, onde sua boca ficou mais tempo, sentindo cada batida da minha pulsação. A nuca foi a próxima — beijos molhados e demorados que me fizeram fechar os olhos. E por fim, os lábios encontraram os meus.

Não eram beijos apressados. Eram doces, pequenos, quase inocentes. Mas por trás de cada um, eu sentia alguma coisa crescendo. Um desejo silencioso que ganhava força a cada toque.

A comida podia esperar. Ele tinha que voltar para as aulas, mas nada disso importava agora.

Deslizamos do sofá para o chão. Fazia tempo que não usávamos a carpete macia da sala, e a sensação do pelo roçando minha pele nua era um prazer à parte. As roupas foram sumindo aos poucos — uma peça aqui, outra ali, até que não restasse nada entre nós.

Nus, deitados naquela superfície felpuda, começamos a nos explorar como quem redescobre um território conhecido. Nossas bocas percorriam cada curva, cada relevo do corpo do outro. Havia fome nos nossos gestos, mas também havia calma — a certeza de que o tempo era nosso.

Ali, na carpete da sala, ambos queríamos a mesma coisa: dar prazer e receber. Nossos corpos se entrelaçavam num jogo de mãos, bocas e línguas que não tinha vencedores, apenas participantes ávidos por mais.

Minha boca encontrou o caminho até sua ereção, enquanto sua língua desbravava meu corpo em direção oposta. Era uma dança sincronizada — eu sentia cada movimento dele como se fosse meu, cada toque ecoando em ondas de prazer que atravessavam minha pele.

Sua boca chegou ao seu destino primeiro. Sentia sua língua explorando cada dobra, cada centímetro de mim, num ritmo que me fazia perder a noção do tempo. Eu retribuía com a mesma intensidade, sentindo sua pele quente contra meus lábios, sua respiração mudar a cada movimento meu.

Ele me fez chegar ao ápice uma vez enquanto me devorava. Meu corpo tremeu inteiro contra a carpete, mas ele pediu — num murmúrio rouco e quase inaudível — que eu não deixasse que ele se perdesse dentro da minha boca.

Continuei. Cada movimento meu era mais lento, mais demorado, como quem prolonga um prazer que não quer ver terminar. E enquanto isso, suas mãos e sua boca continuavam a me dar mais, sempre mais, até que eu mal conseguia pensar.

Foi então que sua voz surgiu, grave e molhada de desejo:

— Vira-te. Mostra esse teu cu lindo para mim.

A obediência veio imediata, como um reflexo. Meu corpo ainda vibrava com os orgasmos anteriores, a pele quente, a respiração ofegante. Virei-me de joelhos, apoiei o peito na carpete e arqueei as costas, oferecendo-lhe cada centímetro de mim.

Adoro essa posição. A sensação de estar exposta, vulnerável, completamente entregue. Meu quadril erguido, minhas pernas abertas, minha intimidade toda à mostra — molhada, inchada, pulsando com o desejo que ainda não estava satisfeito.

Ele entrou em mim com uma profundidade que me fez prender a respiração. Cada movimento era uma afirmação, cada estocada me levava mais longe. Suas mãos encontraram minhas nádegas, e as palmadas que se seguiram foram perfeitas — um estalo que ecoava no silêncio da sala, acompanhado por um arrepio que percorria minha espinha.

— Não espera — pedi, a voz abafada contra a carpete. — Dá-me esse teu leitinho.

Não era um pedido. Era uma ordem.

E ele obedeceu.

Para minha surpresa, senti o líquido quente escorrendo pelas minhas costas, descendo lentamente pela curva das minhas nádegas, escorrendo até minha intimidade. Ele gosta de se vir em mim, e eu adoro essa sensação — o calor do seu prazer contra minha pele, a marca do seu desejo escorrendo por mim.

Ficamos assim, imóveis, por alguns segundos. A respiração pesada, o corpo trêmulo, a sensação de ter sido completamente tomada.

O banho veio em seguida, claro. A água quente lavou o suor e os vestígios do que fizemos, mas não lavou a memória daquela noite. O jantar, coitado, foi parar no micro-ondas, e eu comi sozinha, ainda com um sorriso nos lábios.

Valeu cada segundo de atraso.

Valeu cada pedaço de comida requentada.

Valeu a pena, mais do que qualquer jantar poderia valer.




  Cléia Fialho

domingo, 13 de julho de 2014

quinta-feira, 10 de julho de 2014

SETE DA MANHÃ



O relógio marcava pouco mais das sete.

Da manhã.

Acabara de sair do banho — porque não há melhor despertar do que uma ducha gelada que sacode o corpo e a alma — quando o som da campainha ecoou pela casa. Estranhei. Muito. Quem bateria à porta tão cedo? Uma entrega? Engano? Visita?

Fui atender.

Era ele. Meu Peter Pan particular, madrugador inveterado, que resolveu me presentear com uma surpresa matinal. Durante a semana, nossas vidas nos roubam o tempo — restam apenas cafés rápidos, almoços cronometrados, olhares roubados entre compromissos. Ele disse que sentia minha falta. Que queria me ter por perto sem precisar vigiar o ponteiro do relógio.

Achei lindo. Terno. Daquelas coisas que aquecem o coração antes mesmo do sol nascer.

E o desejo, aquele que a gente abafa durante as horas de trabalho, que reprimimos em reuniões e telefonemas, despertou imediato, voraz, tomando conta de nós como fogo em palha seca.

Terminamos na cama em questão de segundos. Meu roupão sumiu não sei onde, como se tivesse se evaporado no ar. E sentir minhas mãos desfazendo cada nó da gravata dele, desabotoando sua camisa uma a uma, despindo a armadura de executivo que ele veste durante o dia — isso me deu um prazer imenso.

Sua pele estava macia, o rosto liso, a barba recém-feita, cheirando a loção pós-barba.

Lembrando da nossa primeira vez, ele sussurrou que queria minha ajuda. Que eu mostrasse o caminho do meu próprio prazer.

Ele me beijou. E enquanto sua boca encontrava a minha, suas mãos viajavam pelo meu corpo sem pressa, como quem explora um território que quer conhecer de novo. Os lábios dele desceram pelo meu queixo, meu pescoço, meu peito. Depois a barriga, as coxas... até chegar onde eu mais queria.

Ele me beijou ali. Me chupou. Fez tudo direitinho, com dedicação e vontade. Era bom, sim. Mas eu não estava nem perto do fim.

Quando ele parou, virei seu corpo. Ele ficou de costas e eu agarrei sua ereção, já pulsante. Comecei beijando devagar, rodeando com a ponta da língua, descendo, subindo, chupando com calma.

Ele tremia. Os gemidos escapavam, entrecortados, enquanto ele lutava para se controlar. Eu sabia exatamente quando ele ia explodir — e parava. Deixava ele na beira, suspenso, prolongando o que sentia.

Ele repetiu que queria me tirar do sério. Penetrou fundo, com força, com fome. Mas eu sei que essa não é a maneira mais rápida de me levar ao limite, então murmurei no ouvido dele:

— Se você me tocar, eu chego mais rápido.

Mais uma vez, minhas mãos guiaram as dele. Mostrei onde, com que pressão, em que ritmo. Eu já estava encharcada, pronta. Quando ele disse: "Já entendi! Deixa comigo", me entreguei por completo.

Fechei os olhos. Só senti. Seu corpo sobre o meu, sua boca, seus dedos — no começo tímidos, depois seguros, confiantes. E veio.

Não foi um daqueles que derrubam o mundo, mas foi meu. Prazer verdadeiro. Espasmos, gemido, corpo tremendo. Foi gostoso.

Ele sorriu. Feliz. E eu devolvi a escolha: onde ele queria sentir prazer agora?

Ele não soube responder. Ficou com os olhos arregalados, balbuciou algo inaudível.

Deitei um beijo nele e lembrei: o que acontece aqui é nosso. Não precisa de vergonha, de medo. Isso é para ser bom. Para nós dois.

Ele riu, ainda com um traço de timidez. E respondeu:

— Você sabe que a sua boca me enlouquece.

Então atendi ao pedido.

Voltei a ele. E dei-lhe um prazer imenso.

Não preciso dizer que o dia inteiro carregamos sorrisos bobos estampados no rosto, né? Acho que vocês já imaginam.




  Cléia Fialho

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O JOGO DA SEDUÇÃO 2



O jogo de sedução já durava algumas semanas. Olhares que se encontravam e desviavam, sorrisos que diziam mais do que palavras, frases com duplo sentido que pairavam no ar como promessas não ditas.

Ambos trazíamos cicatrizes recentes. Ambos procurávamos distração.

Há poucos dias, depois de uma conversa que se estendeu além do esperado, aconteceu o primeiro beijo.

Terno, quase casto. Por vezes me esqueço de que ele ainda tem muito o que descobrir. Mas aquele beijo tocou em algo dentro de mim. Um beijo de exploração, cheio de curiosidade, intenso na medida certa.

Nossas rotinas se adaptaram para permitir encontros furtivos. Um café rápido entre reuniões, um almoço roubado. Ele tem um jeito leve, um sorriso que me desarma, uma habilidade de fazer rir até nos dias mais cinzentos. As ligações durante o dia se tornaram frequentes — só para saber se estou bem. Conhece minha agenda melhor do que eu mesma: sabe quando tenho treino, quando são as reuniões importantes, quando saio mais cedo ou mais tarde.

Tantas atenções me desconcertam. E a diferença de idade nunca deixou de rondar meus pensamentos. Ele tem uma energia tão jovem, tão renovada, tão cheia de possibilidades.

Ontem à noite, o telefone tocou. Era ele, perguntando onde eu estava, se podíamos nos ver. O dia tinha sido pesado — discussões em casa, cansaço acumulado, aquela sensação de estar sempre no limite. A noite piorou tudo. Aceitei o convite sem hesitar.

Encontramo-nos depois do jantar. Café, uma caminhada, risadas soltas. Os beijos vieram naturalmente.

— Quer subir? — perguntei, a voz mais baixa do que pretendia.

Os beijos dele mantêm aquela doçura quase ingênua, um pouco desajeitados, mas carregados de intenção. Sempre o avisei para ter cuidado, que estava mexendo com algo que talvez não conseguisse controlar. Acho que só ontem ele entendeu o que eu quis dizer.

No sofá, nos enroscamos. Beijos que esquentavam, toques que pediam mais, uma timidez que se dissolvia aos poucos. Quando percebi que ele estava mais à vontade, sugeri mudarmos de cenário.

No quarto, o guiei até a cama. Fui tirando suas roupas, peça por peça. Seu corpo é bonito — definido, firme, um convite silencioso.

Ele tentou me despir também, mas ainda sentia sua ansiedade. Toquei seu rosto, pedi calma, disse que não precisava se preocupar com nada.

Sabia que eu era apenas a segunda mulher dele, depois de um relacionamento longo que deixou marcas. E sabia também que dois meses de abstinência, somados à idade e ao desejo que transbordava em cada olhar, não seriam aliados de uma noite prolongada.

Quando minha boca encontrou seu peito, senti seu corpo se arrepiar. Cada beijo que descia, cada toque da língua na pele, arrancava suspiros profundos. E quando finalmente cheguei onde ele mais queria — seu membro já rígido, pronto — ele quase saltou.

— Não vou durar — disse, a voz falhando.

Com paciência, com pausas, com cuidado, continuei. A novidade me excitava, a tensão acumulada das semanas de flerte, o desejo que tentamos negar. Cada pausa era um momento de suspensão, onde eu mal ousava respirar para não precipitar o fim. Nessas pausas, encostava seu corpo ao meu, deixando que sentisse meu calor, minha excitação.

Quando soube que ele estava no limite, permiti que suas mãos explorassem meu corpo. Seus beijos se tornaram mais ousados, mais famintos. Deixei que ele mostrasse o que sabia, guiando seus dedos pelos caminhos que melhor conhecia.

Ele colocou a proteção e entrou em mim. A posição era simples, quase tradicional. E foi tudo muito veloz. Quando o senti dentro, quando meus dedos ainda tocavam meu próprio corpo, mexi-me levemente e soltei um suspiro. Ele não resistiu. O prazer veio rápido, intenso, seguido de um constrangimento que partiu meu coração.

Senti uma afeição imensa por aquela vulnerabilidade. Por aquela vergonha quase adolescente.

Sei que aquela noite foi mais para ele do que para mim. Mas não me importei. Porque, apesar de tudo, foi bom. Foi verdadeiro. E talvez fosse exatamente o que ambos precisávamos.

Ele se deitou ao meu lado, ofegante, e murmurou algo que não entendi. Eu apenas sorri, passei a mão em seu cabelo e deixei o silêncio falar por nós.

A noite ainda era longa. E mesmo que tudo tivesse durado apenas alguns minutos, havia ali um começo. Algo novo, leve, sem compromissos nem expectativas.

Uma página em branco. E nós dois, prontos para escrever.




  Cléia Fialho

sexta-feira, 4 de julho de 2014

MINHA — TODA MINHA



Ele agarrou-lhe os ombros e empurrou-a de bruços contra o colchão, que cedeu sob o peso dos dois com um som abafado. Ela arqueou as costas num reflexo, o cabelo escuro a escorregar para os lados, a nuca exposta como uma oferenda. Ele baixou a boca e mordeu-a ali, os dentes a afundarem na pele até ela soltar um gemido agudo que lhe encheu os ouvidos. 

«Minha mulher, meu vício, minha sede», rosnou contra a carne quente. As mãos desceram-lhe pelas costas, dedos calejados a agarrar o cós das calças e a puxá-las para baixo. As calças dela desceram até aos joelhos e ele roçou a mão aberta sobre as nádegas nuas.

As calças dela desceram até aos joelhos e ele roçou a mão aberta sobre as nádegas nuas. A pele estava quente, macia, e ele sentiu o corpo inteiro a latejar de fome. Agarrou-lhe as coxas com força e abriu-lhe as pernas, os joelhos a afundarem-se no colchão que cedeu sob o peso dos dois. Ela soltou um gemido abafado contra o lençol, as costas arqueadas, a concha molhada a brilhar na luz fraca do abajur.

Ele desabotoou as calças com um puxão seco. O caralho saltou-lhe para a mão, duro, a glande inchada e a latejar. Não havia paciência. Não havia espera. Só havia a sede. Cuspiu na mão e esfregou a glande contra a fenda dela, a sentir o calor húmido que o chamava para dentro. Ela gemeu e empurrou as ancas para trás, a pedir sem palavras.

Ele agarrou-lhe as ancas com as duas mãos e enterrou-se nela de um empurrão fundo. O caralho abriu caminho pela concha molhada até aos ovos, e o som que saiu da garganta dela foi um grito rouco que lhe encheu o peito de posse. Apertava-o todo, quente, molhada, a puxá-lo para mais fundo. Ele não esperou que ela se habituasse. Puxou as ancas para trás e voltou a enterrar-se, mais fundo, mais seco, mais violento.

O ritmo foi imediato. Estocadas secas, o som de pele molhada a chocar a encher o quarto. Ele puxava-a contra a virilha com cada golpe, os dedos cravados na carne das ancas, a sentir o corpo dela a ceder e a recebê-lo. Ela agarrou o lençol com os nós dos dedos brancos, a gemer alto a cada estocada, o cabelo escuro a saltar sobre os ombros.

«Minha», rosnou ele, a voz rouca e partida. «Toda minha.»

Ela arqueou mais as costas, a concha a apertá-lo, a puxá-lo, a engoli-lo. Ele sentiu o caralho a inchar, a pulsar dentro dela, e o ritmo tornou-se desesperado. As estocadas eram mais rápidas, mais fundas, os ovos a baterem contra a pele molhada dela com um som obsceno. O colchão cedia a cada golpe, a cabeceira da cama a bater contra a parede.

O gozo veio de repente, uma onda que lhe subiu pela espinha e lhe explodiu no ventre. Ele gemeu rouco e enterrou-se até ao fundo, o caralho a pulsar, o esperma quente a jorrar contra o útero dela em jatos grossos. Ela gritou, o corpo a estremecer, a concha a apertá-lo em espasmos que lhe sugaram até à última gota. Ele ficou ali, enterrado, a sentir o esperma a enchê-la, a inundá-la, a escorrer pela fenda enquanto o corpo dela ainda tremia.

O esperma escorre pela fenda dela enquanto ele ainda a mantém aberta, a marca dentro quente.

O peso dele desmoronou-se sobre as costas dela, o peito a achatar-se contra a pele suada, a respiração rouca a abrandar contra a nuca exposta. O caralho ainda estava enterrado, mole agora mas preso dentro da concha encharcada, e ele não fez menção de sair. Queria ficar ali, a sentir o calor húmido que os unia, a pulsação lenta do corpo dela a apertá-lo em espasmos cada vez mais espaçados.

Ela respirava em arrancos, o rosto virado para o lado, a bochecha contra o lençol amarrotado. O corpo tremia ainda, pequenos estremecimentos que lhe percorriam as costas e faziam o caralho dele deslizar um milímetro dentro dela. Ele gemeu baixo, um som rouco e satisfeito, e deixou o peso morto dos ombros afundá-la mais no colchão. O colchão cedeu sob os dois, a espuma a moldar-se à forma dos corpos empilhados, e ele sentiu o esperma quente a escorrer da concha dela, a descer pelo períneo, a pingar contra o tecido do lençol.

O cheiro a sexo enchia o quarto. A luz fraca do abajur desenhava sombras nas costas dele, nos ombros largos que subiam e desciam com a respiração pesada. Lá fora a noite estava fechada, mas ali dentro o tempo parara naquele momento — os dois corpos colados, o esperma a escorrer, o silêncio a crescer.

Ela virou o rosto devagar, o cabelo escuro a arrastar-se contra a almofada. Ele ergueu a cabeça o suficiente para lhe ver o perfil, os lábios entreabertos, os olhos semicerrados. Baixou a boca até à nuca exposta e beijou a marca da mordida — a pele roxa, os dentes ainda impressos, a carne quente sob os lábios. Passou a língua devagar sobre a marca, a roçar a pele sensível, a selar o que já estava selado.

Ela fechou os olhos e um suspiro longo escapou-lhe dos lábios. O corpo rendeu-se mais um pouco, os músculos a relaxarem sob o peso dele, a concha a apertá-lo uma última vez antes de se aquietar.

«Minha», sussurrou ele contra a nuca marcada, a voz rouca e gasta, a palavra a afundar-se na pele roxa como se fosse mais uma mordida.

Ela fechou os olhos, rendida ao que ficou dentro.




  Cléia Fialho